Da Atividade ao Cuidado: Repensar a Ocupação nas ERPI

A participação e o envolvimento nas atividades quotidianas são essenciais para o desenvolvimento do ser humano. No caso das pessoas com demência, a perda progressiva de competências traduz-se numa maior dificuldade em manter um envolvimento satisfatório nessas ocupações.

Mas, afinal, o que são ocupações?

Ocupação é tudo o que uma pessoa faz no dia a dia, incluindo cuidar de si (autocuidado), usufruir da vida (lazer) contribuir para a sociedade onde está inserida (atividades produtivas).

Apesar de existirem diversas evidências que reforçam a importância do envolvimento de todas as pessoas em ocupações significativas, as pessoas com demência continuam a passar grande parte do seu tempo sem lhes ser dada a oportunidade de se envolverem com o meio e com os outros através de atividades que lhes façam sentido.

Um dos grandes desafios para as ERPI centra-se precisamente neste envolvimento em ocupações significativas, devido à perda de capacidades associada à demência. A diminuição da memória e a desorientação – tanto temporal como espacial – reduzem a iniciativa para participar em atividades, tornando necessárias pistas visuais e/ou verbais por parte de quem cuida, para que o meio se torne mais atrativo e incentive, de forma natural, o envolvimento nas ocupações propostas.

Para que este envolvimento seja significativo e contribua para a melhoria da qualidade de vida, a atividade deve ser pensada de forma a não gerar frustração na pessoa, sendo necessário adequá-la às capacidades individuais. Simultaneamente, é fundamental uma mudança de perspetiva por parte dos cuidadores, que devem deixar de ver a ocupação como um “extra” às suas tarefas e passar a encará-la como uma parte essencial da prestação de cuidados.

Quando essa mudança acontecer, deixará de ser considerado “normal” que as pessoas nas ERPI se mantenham sentadas durante longos períodos de tempo, sendo interrompidas apenas para as refeições e idas à casa de banho.

Que mudanças cabem, então, a nós, enquanto cuidadores, para que a ocupação passe a fazer parte, de forma natural, do quotidiano de uma pessoa com demência, dentro das instituições?

Essencialmente, olhar para o indivíduo como o centro da nossa abordagem; conhecê-lo como um todo – desde a sua história de vida até aos seus interesses e capacidades – para que a escolha das atividades seja adequada e vá ao encontro da essência de cada pessoa. Durante a realização da atividade, o acompanhamento deve ser feito sem crítica, deixando espaço para que o erro possa acontecer.

Quando lidamos com pessoas com demência, o nosso foco deve estar no processo e não o produto final. Estamos habituados a ver objetos “perfeitos” feitos pelos residentes das instituições, mas é importante valorizar cada passo realizado, reconhecendo que é através do processo que conseguimos proporcionar momentos de bem-estar e de interação social na vida de alguém com diagnóstico de demência.

Cada tentativa, cada gesto e cada momento de participação têm valor.

Outro dos aspetos essenciais para evitar a recusa na participação é o ambiente onde as atividades decorrem. Ambientes demasiado grandes e ruidosos tornam-se confusos e pouco facilitadores do envolvimento; optar por grupos pequenos permite uma adaptação e um acompanhamento mais individualizados, fundamentais para um desempenho bem-sucedido.

Ocupar por ocupar, sem ter em conta a pessoa que está à nossa frente, além de não ser terapêutico, pode mesmo ser prejudicial, pois aumenta a sensação de isolamento e frustração que tantas vezes já faz parte do dia a dia das pessoas com demência.

Pelo contrário, através de atividades significativas, a pessoa consegue manter as suas capacidades por mais tempo, além de experienciar momentos de bem-estar e dignidade.

Promover a ocupação certa é, acima de tudo, cuidar com intenção – respeitando a individualidade, a história e o projeto de vida de cada pessoa.

 

Ana Marta Cunha

Terapeuta Ocupacional da Vida Maior